O uso do LinkedIn e a autopromoção às custas do comportamento ético

Diante do colapso moral e ético que tem assolado a sociedade brasileira nos últimos tempos, decorrente de tantos escândalos dos mais variados matizes, sejam na esfera pública sejam na esfera privada, envolvendo cidadãos comuns, tenho refletido sobre como o nosso comportamento pauta o nosso estilo de vida e, sobretudo, a nossa visão de mundo, que serve de guia para justificar as ações do cotidiano.

Com o advento das redes sociais, tais manifestações de comportamento ficam ainda mais exacerbadas e permitem conhecer, de fato, o que pensam os milhares de atores sociais que interagem por meio delas. Mais do que isso, evidencia muito do caráter dos indivíduos, um descortinar da sua formação de personalidade e valores.

Vou me ater ao uso do LinkedIn, rede social que desperta a minha admiração desde o seu início, por seu propósito claro de ser uma rede exclusiva para fins profissionais.  Ao longo do tempo, lamentavelmente, tem havido certa deturpação do seu uso, inclusive com manifestações de cunho religioso e político, muitas vezes, com debates acalorados que, a meu ver, não caberiam neste tipo de fórum social.

Contudo, o que mais tem me chamado a atenção no seu uso, tem a ver com uma profusão de clichês, bravatas e frases de efeito, uma avalanche de mensagens superficiais para chamar a atenção para si, na busca incessante por likes; inclusive com estórias adaptadas com a intenção deliberada de fazerem-se parecer verdadeiras mas, absolutamente falsas. A meu ver, um total desserviço ao propósito do LinkedIn, em promover bons relacionamentos profissionais e a disseminação de conteúdos de excelência profissional, visando o desenvolvimento das carreiras e negócios dos seus membros.

Essa miríade de pseudos conteúdos de qualidade, na busca incessante por likes e elogios, chegou a um tal ponto que agrediu o espaço da ética, razão pela qual resolvi me pronunciar,  como cidadão, senão vejamos.

Post de Carolina Martins Ferreira, que se apresenta como Recursos Humanos, Psicóloga, Coach de Carreira e Analista Comportamental, no dia 11 de fevereiro de 2018 na rede LinkedIn:

“Aqui em São Paulo, apesar de ilegal, é comum o comércio ambulante nos vagões dos trens e metrôs. Estava agora no vagão quando entrou um vendedor trazendo um produto inovador, um projetor de 14 polegadas que reproduz as imagens do celular. Ele fez uma venda recheada de gatilhos mentais. Iniciou dizendo eram as últimas 12 unidades, explicou as vantagens do produto, como ele funcionava e disse que o consumidor poderia testar em seu celular antes de pagar. Logo uma moça o chamou e comprou 2 produtos. Em seguida outras pessoas foram o chamando. Quando faltavam apenas duas unidades ele disse que o produto era um sucesso absoluto e pediu para as pessoas que compraram erguerem as mãos e imediatamente vendeu as últimas unidades. A venda aconteceu no trajeto de 4 estações. Coincidentemente eu desci na mesma estação que o ambulante. Ele comemorava, agradecia a Deus pelas vendas e pegava de volta os dois produtos da primeira pessoa que havia comprado. Eles trabalhavam juntosA ideia de uma primeira pessoa comprar logo dois produtos também era uma estratégia para ativar o efeito manada nos outros passageiros. Consegui vê-los tirando mais uma sacola de produtos da mochila, se separando e indo em direção à plataforma de embarque. Uma verdadeira lição de vendas!”

A parte que ora destaco em negrito visa elucidar o meu ponto de vista sobre a banalidade a que chegamos na sociedade brasileira, quanto ao vale tudo para vender e chamar a atenção, mesmo que isso agrida princípios éticos. A senhora Carolina Martins Ferreira nunca respondeu aos meus questionamentos sobre o seu post, via o LinkedIn, atendo-se, apenas, a responder aqueles que com ela concordam e a elogiam.

Penso que formadores de opinião em gestão de pessoas, como é o caso da senhora Carolina, deveriam fomentar e enaltecer o exercício das boas práticas éticas, do profissionalismo baseado em valores e na busca pelo aperfeiçoamento contínuo por meio da educação, das boas práticas, pela honestidade. Postscomo esse que ora compartilho, a meu ver, são um desserviço para a comunidade de Recursos Humanos,  já bastante desacreditada no âmbito das organizações, bem como mais uma evidência que, infelizmente, estamos vivendo em uma sociedade doente, destituída de valores morais, de respeito à ética e, sobretudo, preocupada com a vaidade e a popularidade barata a qualquer preço.

Segundo o professor Lélio Lauretti, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, “a ética é o estágio mais desenvolvido da consciência humana. Diferentemente da lei, que é obrigação, a ética se caracteriza como uma opção pelo bem. Portanto, o grande inimigo da ética é a sua vulgarização”.

Por Américo Figueiredo, Professor de MBA e Certificate in Business Administration do Insper em Gestão de Pessoas, Conselheiro de empresas, Mentor Executivo e de Jovens.

Fonte: Profissional & Negócios

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