Acostumado a encarar pontos como investimento, o profissional brasileiro transforma viagens a trabalho em renda extra. Para os RHs, o hábito acena como retenção de talentos, mas esbarra em riscos trabalhistas e lacunas de compliance

Diferente de outros países da América Latina, onde o acúmulo de pontos ainda está fortemente atrelado aos voos acumulados na raça, o milheiro brasileiro transformou os programas de fidelidade em um verdadeiro mercado financeiro. Impulsionado por um ecossistema robusto de cartões de crédito, programas de bancos e parceiros de varejo, o acúmulo no Brasil virou uma gestão diária de ativos. Como destaca Aloysio Rebello, fundador e CEO da Go Miles Club: “O Brasil é um caso à parte. Aqui, milha deixou de ser um detalhe de viagem e virou quase uma segunda moeda: o brasileiro acompanha saldo, promoção e valor do milheiro como quem acompanha investimento”.

Essa cultura de otimização máxima encontrou no ambiente corporativo o cenário perfeito para o acúmulo a “custo zero”. Quando a empresa custeia passagens e hospedagens para viagens de trabalho, os pontos e milhas continuam sendo creditados diretamente no CPF pessoal do profissional. Sem uma política formalizada na maioria das empresas, essa brecha virou um benefício informal valiosíssimo, permitindo que quem viaja a trabalho acumule saldos altos sem tirar um centavo do próprio bolso.

Para o executivo que vive na estrada, esse acúmulo corporativo funciona como o atalho definitivo para alcançar as categorias máximas nos programas de companhias aéreas e turbinar a retenção no emprego. Com o status elevado (como Diamante, Black ou Platinum), vêm os privilégios reais: salas VIP, upgrades de cabine e despachos gratuitos, que transformam tanto a rotina de trabalho quanto as viagens de férias com a família. Segundo Rebello: “Para cargos de muita viagem, poder acumular e usar as milhas pessoais é um benefício concreto, que o funcionário valoriza de verdade, mesmo que não esteja escrito em lugar nenhum. Tirar esse ‘direito adquirido’ costuma gerar atrito”.

Outra grande vantagem no cenário brasileiro é a possibilidade de monetizar esses pontos corporativos. Graças à maturidade do nosso mercado secundário, o viajante frequente consegue transformar milhas acumuladas em viagens a trabalho em renda extra via plataformas de venda. Essa prática, no entanto, já começa a acender o alerta de governança em algumas empresas. “O mercado secundário de milhas brasileiro é um fenômeno quase único: aqui existe toda uma estrutura para vender e comprar milhas. Do lado da governança, algumas poucas empresas começaram a reagir criando políticas, mas a fiscalização ainda é frágil e a prática segue difundida”, explica o CEO da Go Miles Club.

Do lado das empresas, a tentativa de usar pontos e milhas em campanhas de incentivo para a equipe exige cuidados específicos de compliance para não gerar problemas trabalhistas. Quando o envio de pontos por metas é recorrente, a Justiça do Trabalho pode interpretar a premiação como salário-utilidade (integrando a remuneração pela CLT). Por isso, o recomendável para os RHs é manter essas distribuições amarradas a campanhas pontuais e não habituais, preservando a segurança jurídica e mantendo o apelo promocional da recompensa.

No fim das contas, a relação do brasileiro com as milhas corporativas reflete a maturidade de um ecossistema único na região. Enquanto a integração formal de milhas em carteiras de benefícios flexíveis ainda engatinha no país, o viajante que sabe jogar as regras do jogo continua usando as viagens a trabalho para multiplicar saldos, garantir emissões na classe executiva e gerar renda extra. O grande desafio do setor para os próximos anos será o equilíbrio: as empresas buscando mais controle de custos sem sufocar o maior “benefício invisível” da sua força de vendas e executivos.