
*Rogério Bragherolli é mentor e psicanalista especializado no atendimento de executivos e alta liderança, unindo prática terapêutica à vivência de mais de 30 anos como C-Level em multinacionais
Durante muito tempo, o mercado aceitou a ideia de que ambientes de trabalho excessivamente competitivos, marcados por pressão constante e jornadas exaustivas, eram o preço inevitável da alta performance. Em muitas organizações, a capacidade de suportar sofrimento passou a ser confundida com competência profissional e a sobrevivência virou parte da cultura. O problema é que empresas podem crescer mesmo cultivando ambientes tóxicos. A questão é quanto tempo conseguem sustentar esse modelo sem comprometer pessoas, liderança e os próprios resultados.
Tenho mais de 25 mil pessoas na minha rede do Linkedin. No mês passado fiz uma experiência que não me surpreendeu, mas apenas ratificou o que penso de empresas com uma cultura organizacional tóxica.
Decidi enviar 100 convites a membros aleatórios que trabalham em duas empresas comumente conhecidas como empresas “moedoras de carne”. Empresas onde o ambiente “explorador” é a única forma de “sobrevivência” e condição indispensável de crescimento. Estou falando de empresas com competição excessiva, autoritarismo exagerado, jogo político, falta de transparência, excesso de trabalho, targets inalcançáveis, entre outros abusos.
O resultado apurado foi o esperado: o número e a velocidade de aceites foi em média 30% superior aos convites feitos a profissionais de outras empresas.
De maneira geral, nestas empresas tóxicas o compliance é duvidoso, a comunicação falha, a liderança é despreparada e conivente com comportamentos abusivos são aceitos e praticados. A falta de equidade, justiça, reconhecimento, pluralidade é comum nestas organizações.
Encontrei um número publicado pela Fundação Dom Cabral de 2022, que apesar de ter quatro anos, reflete a minha percepção atual. A FDC fez uma publicação sobre organizações tóxicas e mostrou que aproximadamente 50% das empresas privadas no Brasil encontram-se em uma zona crítica de aperfeiçoamento de gestão de pessoas.
Os resultados do meu experimento me levam a presumir o desconforto dos profissionais em trabalhar em organizações deste tipo mesmo com benefícios tangíveis superiores à média do mercado. O silêncio e o medo imperam nestas organizações, repercutindo baixos índices de comprometimento, inovação e produtividade gerando por consequência alto turnover e a manutenção de uma força de trabalho carente de todo seu potencial. Propositadamente, não mencionei aqui baixos resultados financeiros como resultados, pois por incrível que pareça, ainda é comum encontrar empresas tóxicas com resultados positivos. Resta saber até quando. Espero que em breve a sustentabilidade e a longevidade destas empresas dependam de boas práticas de gestão de seus colaboradores e de um clima organizacional positivo.

Em tempos da atualização da NR-1, este assunto precisa ser discutido com muita seriedade, ética e prioridade. Não dá mais para aceitar este tipo de ambiente que não respeita o bem-estar e a qualidade de vida dos seus profissionais.
Reverter este processo de toxidade nestas organizações é uma tarefa árdua e necessária que envolve mudanças estruturais nos seus processos e em seus padrões culturais.
Em muitos casos, estas empresas necessitarão promover uma robusta revolução de compliance acompanhada de um desenvolvimento sólido da liderança, estimulando escuta ativa dos colaboradores, feedback aberto, processos de ética eficazes, além de uma comunicação bottom up, aberta e transparente.
É importante ter em conta que a cultura organizacional é formada pelas pessoas que estão na organização e seus respectivos comportamentos. Trabalhar em uma organização é fazer parte de um pedaço dela independente da sua posição hierárquica, do seu salário, da sua função específica. Portanto, cuidado para não se moldar a organizações tóxicas, antiéticas, desvirtuando seus valores. Aprenda a lidar com tudo isto, afaste-se de condutas abusivas, não perca sua identidade, seja o autor da sua própria história; mesmo que isto possa te custar até uma saída voluntária em busca de um melhor clima de trabalho e da manutenção da sua saúde mental. Isto não tem preço!
Sobre Rogério Bragherolli
Rogério Bragherolli é mentor e psicanalista especializado no atendimento de executivos e alta liderança, unindo prática terapêutica à vivência de mais de 30 anos como C-Level em multinacionais. Atua no apoio a executivos que enfrentam pressões invisíveis do poder corporativo e decisões de alta complexidade, também trabalha como facilitador das relações conflituosas entre sócios, contribuindo para trajetórias sustentáveis que integrem desempenho, clareza estratégica e saúde mental.
Ao longo da carreira, ocupou posições de liderança em Finanças, Supply Chain, Vendas e Recursos Humanos, tendo sido Vice-Presidente de RH da Sodexo (atual Pluxee) e diretor de RH da Philips para a América Latina, com atuação direta em processos de transformação organizacional, gestão de cultura, potencialização de capital humano e desenvolvimento de executivos.
Engenheiro mecânico pela FEI, economista pela USP e MBA pela FGV, possui especialização em Marketing e Vendas pelo INSEAD (França). Sua trajetória foi marcada pela atuação em ambientes de alta complexidade decisória, lidando com pressão por resultados, gestão de pessoas em larga escala e dinâmicas de poder típicas de estruturas corporativas globais.
É autor do livro O Executivo que Tropeçou no Divã, no qual compartilha reflexões e casos inspirados em sua vivência no mundo corporativo e na escuta psicanalítica de líderes, propondo uma discussão madura sobre o custo emocional do poder e a necessidade de integrar vida pessoal e atuação profissional na construção de uma jornada mais consciente e humanizada.
