Nova legislação busca responsabilizar corporações por questões de saúde mental de colaboradores e amplia exigências na gestão de riscos psicossociais; especialista explica os impactos e orienta como se adaptar
A partir de 26 de maio de 2026, empresas brasileiras passam a ser obrigadas a incluir riscos psicossociais, como burnout, estresse, jornada excessivas de trabalho e assédio, em seus programas de segurança e saúde do trabalho. A medida tem como objetivo conscientizar e incentivar organizações e lideranças a adotarem um olhar mais atento à saúde mental e emocional dos colaboradores.
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou, em 2025, o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais em uma década. Mais de meio milhão de trabalhadores precisaram se afastar por questões relacionadas à saúde mental.
Para a especialista em assédio, segurança psicológica e neurociência, Cris Kerr, fundadora da CKZ Diversidade, a revisão da NR-1 reforça a necessidade de uma mudança estrutural nas organizações, com impactos diretos na cultura corporativa, na governança e na atuações das lideranças. “A norma exige que as empresas passem a olhar de forma sistemática para o ambiente psicossocial, o que envolve prevenção, escuta ativa, ação e responsabilidade sobre comportamentos dentro das organizações”, explica.
Segundo a especialista, a implementação prática passa por alguns pilares fundamentais, como:
- Capacitação de lideranças e equipes sobre conduta, respeito e cultura organizacional;
- Estruturação de canais de denúncia seguros e eficazes para casos de assédio moral e sexual;
- Definição de políticas claras de apuração e responsabilização, com medidas corretivas para esses casos;
- Revisão de cargas de trabalho e jornadas, com foco na prevenção da exaustão;
- Promoção de uma cultura e liderança inclusiva e humanizada, garantindo um ambiente respeitoso para todas as pessoas.
Cris Kerr, que também é professora da FGV, Fundação Dom Cabral e PUC RS, observa que, em muitas organizações, comportamentos inadequados ainda são naturalizados sob a discurso de descontração ou alta performance, o que pode contribuir para ambientes tóxicos e aumento de afastamentos. “Há situações em que lideranças não percebem o impacto de determinadas atitudes no time. O que pode parecer um comportamento trivial para alguns, para outros pode gerar desconforto, insegurança e até afastamento do trabalho”, afirma.
Para a CEO da CKZ Diversidade, a adaptação à NR-1 exige um processo estruturado de transformação interna. Ela propõe um caminho em etapas para empresas que ainda não iniciaram essa transição:
- Diagnóstico: compreender o ambiente organizacional, avaliando se os colaboradores se sentem seguros e se enfrentam situações de desconforto. Esse mapeamento pode ser realizado por meio de pesquisas, entrevistas ou grupos focais.
- Treinamentos para conscientização: lideranças inclusivas são peças-chave para garantir o bem-estar dos times, portanto é recomendável que elas recebam um treinamento para reconhecer as particularidades de cada pessoa colaboradora. Ao colocar os ensinamentos em prática, será criado um espaço onde todas as pessoas se sintam valorizadas e pertencentes.
- Formação de pessoas multiplicadoras: é preciso formar um grupo de pessoas para serem “agentes de transformação”, que serão usadas para corrigir comportamentos inadequados. Assim que perceberem uma conduta inapropriada, elas poderão agir, através da comunicação não violenta, para alertar comportamentos inadequados que podem se tornar assédio.
- Criação de EPIs emocionais: é importante incluir o tema nos DDS – Diálogo Diário de Segurança, nas conversas de time e nos encontros importantes. Espaços de conversa criam um ambiente seguro para as pessoas compartilharem histórias e falarem como se sentem sobre determinadas situações no ambiente de trabalho.
“Quando as pessoas estão emocionalmente saudáveis no trabalho, há ganhos em produtividade, redução de turnover e menor índice de afastamentos por doença. Isso impacta diretamente a sustentabilidade do negócio”, finaliza Cris Kerr, que reforça também que ambientes emocionalmente seguros impactam diretamente os resultados das empresas.
