Mentir no trabalho pode até dar demissão

Profissionais analisam quais são os casos mais comuns de falta de verdade no ambiente corporativo e quais são as consequências

Atestado médico falso ou rasurado pode resultar em demissão por justa causa. Currículo caprichado mas repleto de informações que não são verdadeiras pode iludir o empregador, mas não por muito tempo. No mundo corporativo, são muitas as artimanhas criadas por empregados para tentar enganar os patrões.
“Existem componentes culturais que, de certo modo, aumentam a incidência da mentira no cotidiano trabalhista brasileiro”, diz o mestre e doutor em direito do trabalho Elton Duarte Batalha.
Segundo ele, esse comportamento pode decorrer da insuficiência de diálogos abertos entre empregados e empregadores, em razão de hierarquia rígida existente em alguns setores. “Além disso, há o temor de enfrentar conflitos, mesmo em relações de igual nível hierárquico, para ocultar eventuais divergências de opinião. Nada disso, porém, é suficiente para evitar efeitos negativos para a parte que não fala a verdade.”

A administradora de empresas e diretora da Locar Guindastes e Transportes Intermodais, Marina Simões, lembra que o Brasil é campeão mundial de processos trabalhistas. “Temos dez milhões de ações judiciais em tramitação. Entre os numerosos litígios que entopem e emperram os tribunais, muitos têm origem em mentiras.”
De acordo com ela, a mentira pode começar antes mesmo da contratação. “Há pessoas que acreditam ter mais facilidade para conseguir um emprego se alterarem o currículo, exagerando nas qualificações e experiências e omitir problemas vividos na carreira para vender imagem pessoal distante da realidade.”
Marina afirma que, nos processos seletivos da Locar, várias vezes os recrutadores já identificaram pessoas tinham “turbinado” o currículo.

A falta de expertise no processo de seleção levou a agência de comunicação digital Novos Elementos a contratar um mentiroso. “Isso ocorreu há três anos. Tínhamos uma vaga para líder de equipe e entrevistamos esse candidato. Ele tinha currículo muito bem estruturado e carta de referência. Quando perguntei qual era a sua especialidade, disse que era gerir pessoas e criar processos”, conta o dono da empresa, Celso Fortes.
Ele confessa que simpatizou com o candidato. “Fizemos a contratação e conforme o tempo foi passando percebemos que ele era a pessoa mais desorganizada e sem métodos de trabalho dentro da companhia. Além disso, não tinha nenhuma experiência de liderança”, afirma.
Averiguando a real história do funcionário, Fortes descobriu que ele era um vendedor que queria se tornar líder. “Descobrimos, inclusive, que havia conseguido com o gerente da empresa anterior, que era seu amigo, a carta de recomendação com informações falsas.”
Segundo ele, o resultado foi a total perda de tempo para as duas partes. “Partimos do princípio de acreditar no próximo, ainda mais em um tema tão sério, porque profissionalmente ninguém consegue esconder por muito tempo o que realmente é. Agora, estamos mais atentos ao processo de contratação e ao período de 30 dias de experiência. Acho que o maior prejudicado é o colaborador que mente. Ele perde tempo na carreira e suja a carteira com várias contratações de períodos curtos.”

Muitas mentiras, porém, vão bem além das contadas nos currículos. Presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo (Sindtêxtil-SP), Luiz Arthur Pacheco diz que é possível observar inúmeras mentiras nas relações cotidianas de trabalho. “Afirmações falsas também ocorrem após o término das relações trabalhistas, e essas costumam ser as mais graves.”
Pacheco conta que a Justiça do Trabalho coleciona pedidos indenizatórios de má fé, com valores abusivos e incompatíveis com o salário do ex-empregado e com o cargo que exercia.

Sueli Fernandes, gerente de seleção da Fundação Mudes que é responsável por fazer a mediação entre as empresas conveniadas que oferecem vagas de estágio e estudantes de ensino médio, técnico e superior que estão buscando oportunidade de trabalho. Gerente de seleção, Sueli Fernandes diz quais são os prejuízos decorrentes de mentiras no ambiente corporativo.

Quais são as consequências que contar mentiras no trabalho podem ocasionar?
Normalmente, essas mentiras vão desde a alegação de falsas doenças até a morte de parentes. A mentira é uma péssima saída em qualquer situação e a consequência mais provável é a perda de credibilidade não só diante do empregador como dos próprios colegas. Com o advento das redes sociais, amplamente utilizadas por todos, é quase impossível se manter fora do alcance das pessoas. A mentira acaba escravizando o mentiroso que vai precisar contar outras mentiras para sustentar a primeira. Portanto, mentir é um péssimo negócio.

E quando a pessoa mente sobre suas habilidades e experiências no currículo?
Essa é uma mentira de perna curta, pois o entrevistador com a sua experiência dificilmente não perceberá. A própria linguagem corporal pode denunciar se o candidato está mentindo e despertar a atenção do entrevistador.

E quando a mentira diz respeito a um colega de trabalho e acaba sendo classificada como calúnia ou difamação? Isso irá comprometer a carreira de quem inventou. E a vítima, como fica nessa história?
O comportamento ético é o mínimo que se pode esperar de um colaborador. A calúnia ou difamação de um companheiro de trabalho fere completamente os princípios éticos e, além da demonstração de impiedade, pode levar o infrator a um processo com sérias consequências para sua carreira profissional e sua vida pessoal. Mesmo que o caluniador seja punido, a vítima também terá sua vida devassada com danos incalculáveis.

Fonte: Estadão 

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