
Partidas da Seleção em horários noturnos e dias úteis mudam dinâmica das empresas e exigem regras claras sobre jornada, compensação, trabalho remoto e organização do expediente
Diferentemente de edições anteriores da Copa do Mundo, marcadas por jogos no meio da tarde, o Mundial de 2026 deve criar um novo desafio para empresas brasileiras: organizar a rotina de trabalho diante de partidas da Seleção Brasileira previstas para o período noturno e em dias úteis.
Apesar da expectativa recorrente entre trabalhadores, os jogos do Brasil não são considerados feriados nacionais automáticos. Pela legislação trabalhista brasileira, a dispensa obrigatória do trabalho ocorre apenas em feriados definidos em lei ou nas hipóteses previstas pela própria CLT.
Na prática, isso significa que caberá às empresas decidir como pretendem lidar com os jogos: manter expediente normal, flexibilizar horários, liberar funcionários mais cedo, permitir trabalho remoto, instalar telões no ambiente corporativo ou utilizar mecanismos de compensação, como banco de horas.
Segundo a advogada trabalhista Fernanda Miranda, sócia do Duarte Tonetti Advogados, a principal recomendação é não deixar a definição para a última hora.
“A Copa tem forte impacto cultural e naturalmente influencia o ambiente corporativo. Mas justamente por isso as empresas precisam se organizar com antecedência, estabelecer regras claras e comunicar internamente como o expediente funcionará durante os jogos”, afirma.
A especialista explica que, desde que exista comunicação adequada e mecanismos válidos de compensação, as empresas podem adotar diferentes modelos de flexibilização.
“É possível reduzir jornada, liberar empregados, permitir home office, ajustar horários ou utilizar banco de horas. O importante é que as regras estejam formalizadas para evitar dúvidas, conflitos internos ou questionamentos futuros”, explica.
A edição de 2026 também acende um alerta específico para setores como comércio, bares, restaurantes, hotelaria, serviços e logística, especialmente por conta do impacto dos jogos noturnos na dinâmica operacional e no eventual prolongamento da jornada.
Outro ponto que costuma gerar dúvidas envolve o home office. Segundo Fernanda, o trabalho remoto pode ser uma alternativa interessante em dias de jogos, mas depende de autorização ou política interna da empresa.
“Muitas organizações adotam o home office como solução de flexibilidade e produtividade em datas de grande mobilização coletiva. Mas o empregado não pode decidir unilateralmente trabalhar de casa sem autorização do empregador”, ressalta.
A advogada alerta ainda para faltas injustificadas. Caso a empresa não libere o trabalhador e ele deixe de comparecer ao expediente sem autorização, a ausência pode gerar desconto salarial, impacto no descanso semanal remunerado e medidas disciplinares, dependendo do caso.
“Negociação, planejamento e comunicação interna costumam ser os caminhos mais seguros. A Copa dura algumas semanas. Improvisar regras no meio do torneio tende a aumentar o risco de ruídos internos e passivos trabalhistas”, conclui.
