Com milhões de brasileiros enfrentando problemas relacionados às apostas e 30% dos trabalhadores sem qualquer prática de cuidado com a saúde mental, empresas precisam ampliar sua capacidade de prevenção, acolhimento e suporte aos colaboradores

São Paulo, junho de 2026 – O crescimento das apostas esportivas no Brasil trouxe para dentro das empresas um desafio que já não pode ser ignorado. Embora o hábito de apostar não seja caracterizado pela NR-1 como um risco psicossocial ocupacional, seus impactos sobre a saúde mental, a estabilidade financeira e o desempenho profissional dos trabalhadores vêm exigindo atenção crescente das áreas de Recursos Humanos. Para as empresas, o tema passa a integrar as discussões sobre prevenção, acolhimento e promoção do bem-estar no ambiente de trabalho. 

Levantamento da Unifesp identificou 10,9 milhões de brasileiros que apostam de forma a gerar prejuízos emocionais, familiares ou profissionais. Em 1,4 milhão de casos, o padrão de comportamento já configura transtorno do jogo, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença mental com critérios clínicos definidos na CID-11. No INSS, os pedidos de auxílio-doença por ludopatia cresceram 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025, segundo levantamento do Intercept Brasil.

Empresas que já investem em plataformas integradas de bem-estar, com apoio à saúde mental e acesso facilitado a medicamentos, estão mais preparadas para enfrentar esse desafio. Quando o endividamento compromete a renda, até mesmo a continuidade de tratamentos pode ser afetada. Por isso, oferecer uma rede de cuidado completa é fundamental para proteger os colaboradores antes que os impactos do vício se tornem mais graves.

Para Luis Gonzalez, CEO e cofundador da Vidalink, maior empresa de plano de bem-estar corporativo com mais de 850 empresas e 4 milhões de usuários atendidos, o cenário impõe uma revisão do que se entende por benefício corporativo. “As apostas online representam um risco real para a saúde financeira e emocional de milhões de brasileiros. Quando o endividamento cresce, surgem consequências como ansiedade, estresse, depressão e perda da qualidade de vida. Em muitos casos, a situação chega a um ponto em que a pessoa deixa de priorizar despesas essenciais, incluindo cuidados com a própria saúde e a compra de medicamentos.  Saúde financeira, saúde mental e produtividade estão profundamente conectadas, e ignorar essa relação significa deixar de enfrentar uma das principais ameaças ao bem-estar dos trabalhadores atualmente.” afirma.

30% dos trabalhadores brasileiros não adotam nenhuma prática de cuidado com a saúde mental.

Uma das contribuições menos discutidas no debate sobre bets é o papel dos dados de saúde populacional como instrumento de identificação precoce. A 3ª edição do Check-up de Bem-Estar da Vidalink, realizada com 11.600 trabalhadores de 250 empresas de grande porte entre janeiro e junho de 2025, identificou que 30% dos trabalhadores brasileiros não adotam nenhuma prática de cuidado com a saúde mental. Entre os homens da Geração Z, esse índice chega a 39%. No varejo, o setor com maior exposição a jornadas longas e pressão financeira, 40% dos colaboradores declararam o mesmo.

Para Gisele Caleffi, psicóloga especialista em saúde mental corporativa, esse dado ultrapassa a dimensão do comportamento preventivo. “‘Não fazer nada’ pode se tornar um forte indicador de adoecimento futuro, ou já refletir um sofrimento existente que o colaborador ainda tem dificuldade de reconhecer e nomear”.

Empresas que dispõem de diagnósticos desse tipo conseguem orientar ações antes de a crise se instalar, em vez de reagir ao afastamento, ao conflito ou ao pedido de demissão.

O que acontece quando o vício chega ao expediente

No ambiente corporativo, o transtorno raramente se apresenta com clareza. Manifesta-se, primeiro, como queda de produtividade, gerando atrasos em entregas, erros frequentes, prazos perdidos e desinteresse progressivo pelas rotinas de trabalho. Em seguida surgem mudanças de comportamento como irritabilidade, oscilações de humor associadas a resultados de eventos esportivos e afastamento gradual da equipe. O terceiro padrão, frequentemente o mais tardio a ser identificado pelos gestores, são os sinais de instabilidade financeira retratados em pedidos de adiantamento salarial, empréstimos informais entre colegas e dificuldades financeiras incompatíveis com o nível de renda do colaborador.

Para Gisele, o problema vai muito além do impacto financeiro. “Quando falamos sobre compulsão ou dependência em jogos de aposta, não estamos diante apenas de um problema de comportamento financeiro ou de autocontrole. A literatura mostra que o transtorno frequentemente está associado a quadros de ansiedade, depressão, uso de álcool e outras formas de sofrimento psíquico, tornando sua abordagem mais complexa”.

Segundo ela, muitas vezes, antes mesmo das perdas financeiras se tornarem evidentes, já existem sinais de sofrimento emocional, queda de concentração, prejuízos nas relações, presenteísmo e dificuldades de desempenho. “Identificar esses sinais precocemente e facilitar o acesso ao cuidado pode fazer toda a diferença”, afirma.

Da conscientização à estrutura

O caminho que a maioria das empresas ainda percorre ao enfrentar o tema é o da campanha pontual. Palestras em datas específicas, comunicados internos e rodas de conversa têm valor, mas efeito limitado quando não estão integrados a uma estrutura permanente de suporte. 

Para Gisele Caleffi o que realmente gera impacto são estratégias estruturadas, com suporte real, desenvolvimento de lideranças, acompanhamento de indicadores e práticas consistentes incorporadas à cultura da empresa. “A psicoeducação realizada por especialistas é fundamental para que os colaboradores desenvolvam repertório e conduta adequada, tanto para se cuidarem quanto para apoiarem quem está ao redor”, acrescenta.

Gisele afirma ainda que a conscientização é uma ferramenta importante para ampliar a identificação precoce e facilitar a busca por ajuda especializada. “Ainda existe muito desconhecimento sobre a dependência em jogos, tanto por parte das pessoas que sofrem com o problema quanto das famílias, lideranças e da sociedade em geral. Melhorar a educação sobre o tema é essencial para reduzir seus impactos pessoais, familiares, sociais e profissionais”.

De acordo com a especialista, não existe uma solução única para o problema. “O tratamento deve ser individualizado e considerar a história, a gravidade do quadro e as possíveis comorbidades presentes. Em alguns casos, o tratamento medicamentoso pode ser indicado, especialmente quando existem sintomas significativos de ansiedade, depressão ou alterações de humor associados ao transtorno. Estudos apontam resultados positivos com o uso de antidepressivos e estabilizadores de humor em alguns pacientes, uma vez que a melhora está frequentemente relacionada ao alívio dessas condições que coexistem com o comportamento de jogar”.

Ela ressalta, porém, que a indicação medicamentosa deve ser sempre realizada por um médico, a partir de uma avaliação clínica cuidadosa. “O medicamento, quando prescrito, trata parte do sofrimento. Mas a recuperação exige olhar também para aquilo que o jogo estava tentando anestesiar. Muitas vezes, a aposta não é apenas o problema. Ela também pode ser uma tentativa de lidar com dores emocionais, ansiedade, vazio, estresse ou outras formas de sofrimento que precisam ser compreendidas e cuidadas”, acrescenta.

Quando o tratamento medicamentoso é indicado, o acesso aos medicamentos e a continuidade da terapia tornam-se fatores importantes para a adesão e a recuperação. Nesse contexto, benefícios corporativos voltados para saúde podem contribuir para reduzir principalmente barreiras financeiras. Com o plano de medicamentos da Vidalink, empresas conseguem subsidiar parte do custo dos tratamentos prescritos, permitindo que colaboradores tenham acesso a medicamentos com economia significativa e maior previsibilidade de gastos, ao mesmo tempo em que as organizações reduzem custos relacionados a afastamentos e agravamento dos quadros de saúde. O modelo oferece subsídio direto na compra de remédios, funcionando como aumento salarial indireto, com custo até 85% menor para a empresa do que repassar o mesmo valor na folha de pagamento.

“A saúde mental exige continuidade de cuidado. Quando o colaborador encontra dificuldades financeiras para seguir o tratamento, as chances de interrupção aumentam. O acesso facilitado aos medicamentos é um dos pilares para garantir que esse cuidado seja sustentado ao longo do tempo”, diz Luis. 

A recuperação depende de uma abordagem mais ampla, que inclui acompanhamento psicológico, fortalecimento da motivação para a mudança, apoio social e estratégias de prevenção de recaídas. “A motivação para a mudança é um dos fatores mais importantes para a adesão e o sucesso do tratamento”, conclui. 

Luis Gonzalez traduz essa necessidade em termos de desenho de benefício. “O RH precisa oferecer soluções personalizadas que dialoguem com as vulnerabilidades reais dos colaboradores. Não se trata de invadir a vida pessoal, mas de reconhecer que o trabalho é parte da vida e precisa acolher os desafios que vêm junto com ela.”