Pesquisa indica que líderes são peça-chave na resposta ao assédio, mas falhas na condução de denúncias persistem

 

A violência e o assédio permanecem problemas graves e persistentes no mercado de trabalho. Estudos sobre o tema têm abordado os fatores que perpetuam o assédio sexual, as consequências para as vítimas e as barreiras encontradas na busca por justiça. Contudo, um aspecto segue pouco explorado: o papel da liderança no enfrentamento dessa violência. Uma pesquisa realizada pelo Insper, em parceria com o Instituto Talenses Group e a consultoria Think Eva, analisa um aspecto inédito e apresenta os fatores que influenciam líderes a encaminharem denúncias de assédio sexual. O estudo revela que a liderança tem papel decisivo no enfrentamento do assédio sexual no ambiente corporativo e destaca que um clima organizacional ético aumenta a disposição dos gestores para encaminharem denúncias. O levantamento também expõe dificuldades persistentes na resposta aos casos de assédio, como a subnotificação e a percepção de impunidade.

A pesquisa analisou a percepção de 283 líderes de diversas organizações e setores sobre a condução de denúncias de assédio sexual. Os resultados indicam que, quanto maior a percepção de um clima organizacional ético, maior é a propensão dos líderes a apoiar e dar continuidade às denúncias. No entanto, a gravidade percebida do ato influencia diretamente essa decisão: denúncias envolvendo contato físico não consentido ou coerção sexual são mais frequentemente encaminhadas, enquanto casos de comentários inapropriados ou insinuações veladas enfrentam menor adesão.

O tema apresenta impactos severos, tanto para as vítimas, quanto para as empresas. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, cerca de 55% das vítimas de violência no trabalho reportam os casos diretamente aos seus supervisores ou empregadores, reforçando a importância de uma resposta adequada da liderança. No entanto, muitas denúncias não avançam devido à falta de preparo dos gestores e ao medo de retaliação. Outro dado alarmante, revelado por uma pesquisa da Think Eva em parceria com o LinkedIn em 2020, é a grande resistência das vítimas em denunciar casos de assédio. Apenas 5% das mulheres recorreram ao RH, enquanto 8% optaram por denúncias anônimas. O impacto do assédio foi tão grave, que 15% das vítimas pediram demissão e 33% decidiram não tomar nenhuma atitude.

O levantamento atual aponta que o medo de represálias e a falta de confiança na seriedade com que as denúncias são tratadas aparecem como os principais motivos para a subnotificação. Para Carla Fava, diretora do Instituto Talenses Group cabe às empresas reconhecerem a gravidade do tema e fazer um diagnóstico interno. “É preciso entender se a liderança está preparada para enfrentar o problema, ampliar espaços relacionais, com programas de escuta ativa e um ambiente que reforce a segurança psicológica. É preciso também avaliar se os canais estão sendo efetivos. Não basta ter programas que apoiem os colaboradores, as companhias precisam transparecer, para que esses profissionais sintam que estão em um ambiente onde podem confiar. A soma desse conjunto, contribui para uma organização mais transparente”, analisa.

“O ambiente importa bastante. As pessoas olham para o entorno social para pegar dicas do que seria um comportamento ético apropriado. Dessa forma, quando você está em um ambiente que percebe como ético, há uma disposição maior, no caso do nosso trabalho, de encaminhar uma denúncia de assédio sexual.”, explica Tatiana Iwai, coordenadora do Núcleo de Comportamento e Gestão de Pessoas do Insper. Para Ana Diniz, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero do Insper, a responsabilização dos gestores é essencial para quebrar o ciclo de impunidade. “Tão importante quanto reforçar os valores no discurso é garantir que esses valores ganhem vida nas práticas e políticas organizacionais”, afirma.

Diante dos achados, a pesquisa recomenda que empresas implementem canais de denúncia confiáveis, garantindo anonimato e segurança às vítimas. Além disso, destaca a necessidade de capacitação contínua de líderes para que reconheçam todas as formas de assédio e saibam como agir diante de denúncias, evitando que sua percepção subjetiva da gravidade do caso interfira na condução dos relatos. O alinhamento entre os valores organizacionais e as práticas diárias, também é essencial para fortalecer um ambiente ético e seguro, assim como a garantia de acolhimento às vítimas, oferecendo suporte psicológico e acompanhamento adequado dos casos. “As equipes de RH devem estar preparadas para que o problema não seja minimizado e tenha o encaminhamento devido. As mulheres precisam estar seguras de que quando forem denunciar, isso não se reverta contra elas, impedindo seu avanço profissional ou até causando uma demissão”, afirma Maíra Liguori, cofundadora da Think Eva.

“Existe um amplo campo a ser investigado, especialmente considerando o papel fundamental que a gestão pode exercer como agente transformador nesse cenário”, conclui Maicon Angelo, doutorando em Administração no Insper e um dos responsáveis pela pesquisa. O estudo do Talenses Group, Insper e Think Eva reafirma a urgência de uma abordagem ativa e integrada no combate ao assédio sexual, fortalecendo a cultura organizacional e garantindo que todas as denúncias sejam tratadas com a seriedade necessária.