Em um cenário marcado por ruídos constantes e disputas narrativas, um dos equívocos mais recorrentes no mercado tanto no ambiente corporativo quanto nas trajetórias individuais é transformar posicionamento em polarização. Marcas, pessoas e negócios operam dentro de um ecossistema complexo, formado por crenças, valores, expectativas e emoções diversas. Quando essa complexidade é reduzida a leituras simplistas ou a enquadramentos ideológicos estreitos, o posicionamento deixa de ser estratégia e passa a representar um risco reputacional alto, muitas vezes com custos difíceis de reverter.

Empresas perdem força quando menosprezam o poder da coletividade. Em uma economia orientada pelo consumo, pela identificação e pela conexão emocional com o público, ignorar crenças compartilhadas e sensibilidades sociais não é apenas um deslize é um erro estratégico. No fim de 2025, uma marca líder exemplificou esse risco ao adotar um posicionamento polarizado e desnecessário em uma campanha publicitária. A reação foi imediata: parte do público se sentiu diretamente atingida, respondeu com rejeição e se afastou da marca. Mais do que uma crise pontual de comunicação, o episódio revelou uma falha evidente de leitura de mercado e de compreensão do próprio ecossistema de consumidores.

Esse episódio funciona como um alerta importante em um momento simbólico de início de ciclo. Entramos em um período que tende a ser ainda mais desafiador quando o assunto envolve ideologias, política, diversidade de pensamento e posicionamentos públicos. E isso não vale apenas para empresas. Vale, principalmente, para profissionais.

Como headhunter especialista em gestão de pessoas e busca e seleção de executivos, faço um convite direto ao leitor. Tenha extremo cuidado com seus posicionamentos, especialmente no ambiente digital. A internet permite quase tudo, mas tudo também é visto, registrado, interpretado e julgado o tempo inteiro. O que muitos ainda subestimam é que uma única ação, um comentário mal colocado ou um posicionamento impulsivo pode comprometer uma credibilidade construída ao longo de toda uma vida profissional.

No mercado executivo, imagem é ativo. Reputação não se negocia. Coerência entre discurso, comportamento e valores sustenta carreiras de longo prazo. Não se trata de deixar de ter opinião, mas de saber quando, como e se ela precisa ser exposta. Temas sensíveis exigem maturidade emocional, leitura de contexto e inteligência relacional. Em muitos casos, a neutralidade estratégica não é omissão, é sabedoria.

Antes de se posicionar, vale se perguntar se aquilo agrega, se constrói, se fortalece sua imagem ou se apenas atende a um impulso momentâneo. Autodesenvolvimento também passa por aprender a se comunicar melhor, escolher batalhas e entender que, no mundo profissional, não basta ser. É preciso parecer. E parecer exige coerência em tudo o que se faz. Cuidar da própria imagem, dos posicionamentos e das relações não é vaidade. É inteligência de carreira. Em um mercado cada vez mais atento e conectado, quem não cuida da própria narrativa corre o risco de ser definido por ela.

*Bárbara Nogueira é Diretora, Career Advisor & Headhunter da Prime Talent, Conselheira de Administração pela Fundação Dom Cabral e do ChildFund Brasil.