Diretor de Pessoas e Cultura explica como padrões de sobrecarga frequentes indicam hábitos profissionais que precisam ser repensados

O fim do ano costuma chegar acompanhado de uma sensação de exaustão experimentada por muitas pessoas. Mas, quando o assunto é trabalho, esse esgotamento vai além da correria típica de dezembro: ele revela um padrão de funcionamento que se acumula ao longo dos meses. Um levantamento recente do LinkedIn mostra que 87% dos profissionais brasileiros se sentem sobrecarregados diante das constantes mudanças no mercado — um índice que supera países como Estados Unidos (50%), Alemanha (70%) e Índia (82%). Na reta final do ano, esse cenário pode se intensificar, já que os prazos se amontoam e cresce a pressão por entregar tudo antes das festas.

Segundo Rennan Vilar, Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional, esse ritmo intenso não é apenas uma reação ao calendário, na verdade, expõe uma cultura de excessos que valoriza urgências e normaliza a ideia de que produtividade só existe quando há sobrecarga. Assim, muitos profissionais encerram o ano emocional e fisicamente drenados. Para o executivo, esse desgaste recorrente não deve ser tratado como algo inevitável.

“Quando o cansaço de dezembro chega como um velho conhecido — previsível, forte e repetitivo — ele deixa de ser uma consequência da agenda e passa a ser um termômetro da forma como esse profissional tem se relacionado com o trabalho ao longo do ano”, afirma.

Cansaço de fim de ano: sinal ou consequência?

Para Vilar, a sensação de esgotamento que se intensifica em novembro e dezembro costuma ter raízes que começaram muito antes, em padrões de funcionamento que se repetem silenciosamente: a dificuldade de dizer “não”, a necessidade constante de provar valor, o hábito de assumir mais demandas do que é possível entregar e a crença de que o reconhecimento depende da disponibilidade infinita.

“Grande parte desse cansaço vem da cultura da produtividade a qualquer custo. As pessoas passam 11 meses tendo praticamente que ignorar seus limites. Quando chega em dezembro, o corpo e a mente simplesmente não conseguem mais acompanhar o ritmo”, explica. O executivo reforça que o problema não é organizar entregas do fim do ano, já que isso faz parte do ciclo profissional, mas transformar todos os meses em um dezembro permanente. Quando isso acontece, a exaustão deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.

Vilar destaca que há sinais claros de que o desgaste já está extrapolando o normal, entre eles:

  • Sensação de estar “sempre devendo”, independentemente do volume de entregas.

  • Repetição anual da mesma exaustão, mesmo após férias ou recessos.

  • Hábito de assumir tarefas sem questionar prioridades ou limites.

  • Percepção de que qualquer pausa gera culpa ou ansiedade.

Segundo o diretor, esses indicadores têm mais relação com padrões organizacionais e comportamentais do que com o mês de dezembro em si. “Quando o profissional repete esses hábitos durante o ano inteiro, o fim do ano só amplifica um desgaste que já vinha se acumulando”, comenta.

O papel das empresas no desgaste recorrente

Vilar reforça que o cansaço de fim de ano não é uma responsabilidade que cabe apenas ao indivíduo saber gerenciar. Para ele, as empresas também precisam estar atentas ao quanto suas estruturas, metas e práticas de gestão alimentam ciclos de sobrecarga. “Se a única forma de dar conta do trabalho é esticando jornada, sacrificando pausas ou apagando incêndio, o problema não está nas pessoas, está no modelo organizacional”, afirma. Na prática, ele destaca três ações que reduzem o impacto desse desgaste:

1) Planejamento realista e comunicação clara
Metas que mudam o tempo todo, prazos irreais e falta de alinhamento entre equipes geram um ambiente de urgência crônica.

2) Lideranças presentes e acessíveis
Gestores que acompanham, priorizam e orientam reduzem significativamente a sensação de sobrecarga. “Ausência de liderança sempre transfere peso ao time”, reforça o diretor.

3) Cultura de responsabilidade compartilhada
Quando a empresa deixa claro o que é responsabilidade da organização, do gestor e do colaborador, há mais equilíbrio e menos culpa desnecessária.

Como começar 2026 com mais equilíbrio

Para o indivíduo, há ajustes simples, mas consistentes, que podem transformar a relação com o trabalho no próximo ano. De acordo com Vilar , a chave está em revisitar hábitos e criar pequenas rotinas de proteção emocional e organizacional. Entre as mudanças possíveis, destacam-se:

1) Revisar hábitos de autocobrança e redefinir limites: quando o profissional ajusta suas expectativas internas, ele alivia uma parcela importante da pressão que ele mesmo coloca sobre o próprio desempenho. Ao estabelecer limites claros, o trabalho deixa de invadir espaços que deveriam ser de descanso e recuperação.

2) Aprender a priorizar e negociar prazos: organizar demandas e renegociar tempo quando necessário ajuda a quebrar a sensação constante de urgência. Esse movimento reduz a apreensão e permite entregar com mais qualidade e menos desgaste.

3) Estabelecer pausas reais durante a rotina de trabalho: intervalos curtos e frequentes impedem o acúmulo de tensão ao longo do dia. Pausar não é perder tempo, é garantir que a energia e a clareza mental se mantenham até o fim da jornada.

4) Mudar a ideia de que disponibilidade total é sinônimo de valor: ao abandonar o hábito de estar sempre online, o profissional recupera fronteiras saudáveis e devolve a si mesmo o direito de desconectar. Isso cria mais previsibilidade e reduz a exaustão que vem da sensação de estar sempre “à disposição”.

5) Reavaliar tarefas assumidas por inércia e aprender a dizer “não”: muitas sobrecargas são resultado de demandas aceitas automaticamente, sem análise do impacto. Filtrar o que realmente faz sentido e negar aquilo que ultrapassa a capacidade evita o acúmulo desnecessário de responsabilidades.

Segundo Vilar, essas mudanças não são grandes revoluções, mas pequenos ajustes consistentes. “Mais leveza não nasce de um ano novo, mas de uma forma nova de se relacionar com o próprio trabalho. Quando a pessoa aprende a se proteger do excesso, ela ganha espaço para produzir melhor e viver melhor”, conclui.