Giovanna Gregori Pinto, executiva de RH e fundadora da People Leap – Créditos: Divulgação

A Black Friday é, para muitas empresas, o equivalente corporativo a um “teste de estresse”. É o momento em que processos, sistemas, lideranças e pessoas são colocados à prova em ritmo acelerado. O faturamento do e-commerce brasileiro na Black Friday 2025 deve aumentar 17% em relação ao mesmo período de 2024, para R$ 11 bilhões em produtos vendidos, segundo relatório da Neotrust. Isso significa que, enquanto consumidores buscam as melhores ofertas, dentro das empresas há equipes lidando com prazos curtos, demandas multiplicadas e altos níveis de pressão.

Sob estresse, equipes bem preparadas, com clareza de papéis, autonomia e propósito, tendem a responder com colaboração e foco. Já times com gaps de liderança, baixa confiança ou comunicação falha costumam apresentar ruídos, sobrecarga e conflitos. Esse contraste é valioso, pois líderes atentos podem usar a Black Friday como uma oportunidade de diagnóstico. O que funcionou bem sob pressão? Onde houve atrito? Quais comportamentos se sobressaíram? As respostas a essas perguntas ajudam a identificar problemas invisíveis no dia a dia.

Um ponto importante para destacar é que a Black Friday também marca um aumento nas contratações, refletindo um movimento significativo no mercado de trabalho. Uma pesquisa da Sólides indicou que, entre 2022 e 2024, o número médio de vagas temporárias abertas em setembro e outubro foi 81% maior do que nos outros meses do ano. E nos dois meses que antecedem a data, as vagas fixas cresceram 17,5% na média dos últimos dois anos, com alta expressiva de 58,6% entre 2023 e 2024. Esse reforço no quadro de funcionários é positivo para a economia, mas traz mais um desafio de gestão: integrar rapidamente pessoas novas nas equipes. O sucesso desse cenário depende da forma como as empresas preparam e acolhem esses profissionais, pois não se trata apenas de treiná-los em processos operacionais, mas capacitá-los para lidar com a pressão, comunicar-se com clareza e manter a qualidade do atendimento mesmo em momentos de sobrecarga.

Nesse contexto, em períodos críticos, a liderança se torna o principal diferencial competitivo. Não é o momento de microgerenciar, mas de reforçar confiança. Times que confiam em seus gestores e sentem segurança psicológica tendem a inovar e encontrar soluções com mais rapidez. Por outro lado, líderes que cedem ao pânico geram desorganização e queda de desempenho. Quando o profissional traduz e explica as prioridades e demonstra equilíbrio, o time acompanha.

O grande erro das empresas é tratar a Black Friday como uma exceção, mas, na verdade, ela deveria ser vista como um laboratório. Após o pico, é essencial realizar um feedback com as equipes: entender o que deu certo, o que pode melhorar e quais comportamentos merecem ser reforçados. Esse momento de reflexão transforma o aprendizado pontual em melhoria contínua. Além disso, os líderes podem aproveitar a experiência para fortalecer rituais de alinhamento, investir em programas de desenvolvimento e revisar processos internos. Quando o cuidado com as pessoas se mantém também fora dos períodos de pressão, o desempenho deixa de ser reativo e se torna sustentável.

Por fim, a Black Friday é um espelho da cultura organizacional. Ela expõe a coerência entre discurso e prática. Empresas que passam por esse “teste de estresse” com equilíbrio não são as que têm os melhores slogans, mas as que realmente colocam as pessoas no centro da estratégia em todos os dias do ano.