Na pressa por preencher vagas, há empresas pulando uma etapa fundamental no processo de seleção: a checagem. Saiba como buscar as referências adequadas
Era 2010. Uma grande empresa começou um processo de busca para preencher a vaga de gerente financeiro. Após passar por várias entrevistas com recrutadores e checagem de referências, o candidato, com passagem em duas multinacionais, foi selecionado para a conversa final com o cliente. Aprovado, seguiu para a fase de proposta e os procedimentos para sua contratação foram iniciados. Nessa etapa, uma última checagem foi feita — em um local que às vezes passa despercebido por selecionadores — a polícia. E aí o candidato perfeito foi desmascarado — ele havia sido julgado e condenado por crime de estelionato. O processo todo foi cancelado e a seleção começou de novo do zero.
Por muito pouco, essa empresa não caiu num perigoso conto do vigário — o que acontece, com mais frequência do que se imagina, com tantas outras que descuidam do ritual cansativo da checagem nas entrevistas de seleção. Num período de aquecimento, em que há poucos profissionais para as muitas vagas que se abrem, mais companhias estão dispostas a não só baixar a régua da competência na hora da contratação como também a diminuir o tempo de procura e etapas de checagem para preencher logo as posições. E aí o risco de comprar gato por lebre e provocar estragos na rotina da organização aumenta. Afinal, o erro numa contratação — especialmente para um cargo de liderança — custa caro. E não se trata de um custo financeiro apenas. Um deslize desse tamanho pode arranhar a imagem da companhia no mercado, prejudicando na futura contratação, além de provocar a desmotivação da equipe, pesando o clima organizacional.
A pressa, nesse caso, é literalmente inimiga da perfeição. “Em processos seletivos, otimizar não é uma opção”, diz Anna Carolina Frazão, gerente de aquisição de talentos da farmacêutica Bristol-Myers Squibb. “Uma contratação malfeita vai muito além de começar o trabalho do zero. Depois que a pessoa entra na empresa, você não pode demitir no dia seguinte — é preciso dar feedback e passar por todo um ciclo. Se nada der certo, terá de passar pelo desgaste da demissão e, aí sim, começar tudo de novo.”
Contra mentiras e omissões que vão desde aumentar o nível de fluência no inglês até casos como o do estelionatário, a solução é a checagem exaustiva. “Como 100% das minhas vagas demandam fluência em inglês, eu já faço a checagem por telefone, para ganhar tempo”, diz Aurea Imai, headhunter e sócia da Boyden, consultoria americana de recrutamento de executivo. Jacqueline Resch, sócia-diretora da Resch Recursos Humanos, empresa que recruta e seleciona executivos para cargos de gerência e diretoria de companhias de grande porte, diz evitar sustos ao ser o mais detalhista possível durante as conversas com os candidatos. “Os entrevistadores mais experientes têm um processo de investigação mais profundo e não se limitam às primeiras respostas. Durante a própria entrevista, eles checam, com novas perguntas, informações fornecidas pelos candidatos”, diz ela.
Vencida a etapa da checagem durante o processo de entrevista, é hora de confirmar se as informações fornecidas pela pessoa tanto no currículo quanto na conversa são verídicas. Aurea realiza o que ela chama de referência 360 graus. “Eu converso com um ex-superior, um ex-par e um ex-subordinado, de forma a não prejudicar o candidato e levantar informações úteis, que serão decisivas para determinar se aquele é o profissional ideal para a vaga”, diz. Foi numa dessas checagens que ela detectou problemas de relacionamento em um profissional indicado para uma vaga de diretor comercial. “Durante conversa com seus superiores, tive excelentes referências. Mas, no momento em que fui buscar informações com pessoas que tinham trabalhado com ele, fiquei sabendo que, apesar de ser reconhecido como alguém que trazia ótimos resultados, havia até queixas de assédio moral contra ele”, afirma Aurea.
Mesmo sendo fundamental num processo de seleção, a checagem com outros profissionais que trabalharam com o candidato é a parte mais difícil do processo ó e por isso (além da pressa) é posta de lado muitas vezes. É preciso saber que há funcionários que podem mentir, para o bem e para o mal, nesse momento e também há aqueles que são proibidos pela companhia de falar de ex-funcionários.
Quando o virtual é mais real
A internet pode ser também uma poderosa aliada nessa investigação. Segundo as pesquisas do Laboratório de Mídias Sociais da Universidade Cornell, nos Estandos Unidos, os perfis publicados no mundo virtual são muitas vezes mais reais do que os dos velhos currículos de papel. Em estudo realizado com 119 formandos da universidade, verificou-se que as informações publicadas no LinkedIn continham menos mentiras sobre suas experiências profissionais do que as cópias em papel.
Anna Carolina, da Bristol, é adepta da busca e checagem pelo LinkedIn. “Acesso muito o perfil Recruiter. Com ele, vejo detalhes dos profissionais, que me ajudam muito nesse processo de pesquisa”, diz. Aurea, da Boyden, usa também o Google. “Muitas vezes, na impossibilidade de confirmar algumas informações com referências, faço uma busca no Google pelo nome do candidato e levanto dados relevantes e determinantes para o meu processo de tomada de decisão.”
fonte: Você RH


Muito bom esta matéria, contudo, acho que todo este processo acaba também por deixar moroso a etapa de recrutamento. A pergunta que deixo é a seguinte: quando do levantameno de todas as informações é identificado algo que poderemos classificar como grave, qual seria o tipo de feed back que o candidato deve receber?
ótima pergunta Deny, obrigado por sua participação, o processo de seleção também envolve diversas barreiras éticas, têm existido até mesmo algumas jurisprudências regulando até onde as empresas podem ir acerca do levantamento de informações. Penso que o feedback nao deverá ser detalhado, e ser usado o tipo de comunicado padrão para não aprovados no processo, isso porque hoje em dia podem haver até mesmo barreiras legais.
Um forte abraço!
Gostei, André! Ainda mais porque ficou clara a importância do nosso trabalho enquanto consultoria de RH. Aqui na Tharget nosso processo dura em média 20 dias úteis e, apesar de fazermos um grande esforço para que o tempo esteja em nosso favor, optamos sempre pela qualidade durante as entrevistas, nos encontros com candidatos e na leitura da realidade da empresa que nos contrata. É muito importante você levantar esse tema já que nem sempre há a contratação de uma consultoria com a Tharget, e os processos internos devem ser tão cuidadosos quanto. Um grade abraço!
Obrigado pela participaçao Alcione! Realmente Processo seletivo é coisa séria! Apressar o procedimento poderá comprometer o resultado final. Parabéns pelo bom trabalho da Tharget!
Ótima explicação, ao ler a matéria percebi que o candidato não pode sair da empresa por antipatia, ou por não concordar com a política da empresa. Certo!!! Esse candidato não entraria na sua seleção. Qual empresa falaria bem de alguém que indispôs com a sua política, mesmo sendo a política errada? Sabemos que, se ele pensasse igual ao seu superior não haveria tanto motivo para sair do atual emprego.
O interessante é que já chegou em minhas mãos o diálogo da empresa anterior e a empresa contratante, foi processada pela perda da chance. Ou seja, o tribunal entende que o antigo empregador pensa “ou trabalha pra mim ou para mais ninguém, e se ligarem falo mau mesmo”. dificultando assim a liberdade de opinião e a busca de melhoras. Nem o SPC a empresa pode pedir para o futuro candidato.